Primeiro dia do AMPLIFY reúne artistas e produtores para falar sobre carreira, bastidores e futuro da música

O primeiro dia do AMPLIFY mostrou que a música vai muito além do palco, da pista e do lançamento nas plataformas. Realizado com a presença da Music Stream, da DJ Ban e de profissionais de diferentes áreas da cena, o encontro abriu espaço para conversas sobre trajetória, produção, networking, distribuição, construção de catálogo, saúde criativa e os bastidores que fazem uma carreira acontecer.

Ao longo da noite, nomes como Augusto Mystical, Iviz Duarte, Aaron, Fernanda Porto e NIKO compartilharam experiências que passam por diferentes momentos da indústria musical. Das primeiras produções em casa aos grandes festivais, do drum and bass ao lo-fi, do house ao trap, da música eletrônica ao mercado fonográfico, o evento reforçou a importância de aproximar quem já construiu caminho de quem está começando agora.
Augusto Mystical fala sobre drum and bass, marcas e sonic branding
Um dos nomes presentes no primeiro dia foi Augusto Mystical, que relembrou uma trajetória iniciada ainda muito cedo. Ele contou que começou na música eletrônica aos 13 anos, primeiro como DJ, até passar a produzir suas próprias faixas influenciado por nomes importantes do drum and bass, como XRS. Em meados dos anos 1990, começou a se envolver mais profundamente com a cena e, nos anos 2000, lançou sua primeira faixa pela gravadora Trama.

Ao longo da carreira, Augusto passou por gravadoras como Trama, ST2 e Universal Music, além de outras labels. Também teve faixas em compilações importantes, incluindo materiais ligados ao Skol Beats, um dos eventos mais simbólicos da música eletrônica brasileira. Para ele, estar em uma compilação daquele período representava fazer parte de um momento em que a cena eletrônica ganhava força e ocupava espaços cada vez maiores no país.
Mas sua trajetória não ficou restrita às pistas. Augusto encontrou um nicho ao aproximar música eletrônica e mercado corporativo, criando projetos de branding, compilações temáticas e ações musicais para marcas como Land Rover, Häagen-Dazs, Avon e Track&Field. A partir dessa experiência, passou a atuar também com sonic branding, criando elementos sonoros capazes de fixar marcas na memória do público.
Da televisão ao streaming
Entre os momentos marcantes da carreira, Augusto citou a emoção de tocar no Skol Beats e de ouvir sua música em um dos principais horários da televisão brasileira. Ele também falou sobre trabalhos em novelas e sobre como a música ajuda a fixar personagens, marcas e narrativas no imaginário do público.

Para Augusto, mesmo que a televisão já não ocupe o mesmo lugar para as novas gerações, a lógica televisiva continua presente em plataformas como o YouTube. O público ainda se envolve com conteúdos mais longos, narrativas recorrentes e experiências audiovisuais que criam vínculo. Foi observando esse comportamento que ele passou a investir também em projetos de streaming e lo-fi.
Um dos exemplos mais recentes é a faixa “TDAH”, lançada pela Music Stream. A música trabalha elementos de lo-fi e sons inesperados dentro da afinação, simulando pequenas quebras de foco. A ideia nasce da própria vivência de Augusto com TDAH e transforma uma característica pessoal em linguagem sonora.
Networking como construção real
Ao falar sobre o AMPLIFY, Augusto destacou a importância do networking para artistas e produtores. Segundo ele, muitos criadores passam boa parte do tempo no estúdio, em uma rotina mais introspectiva, e acabam tendo pouca conexão com outras pessoas do mercado. Nos últimos anos, ele buscou justamente se aproximar de ambientes de troca, marketing e relacionamento para criar conexões mais verdadeiras.

Para ele, o futuro da cena passa por incentivar novos produtores a construírem catálogo com consciência. Não se trata de lançar músicas apenas por quantidade ou para alimentar métricas de vaidade, mas de entender consistência, marketing pessoal, presença de marca e colaboração. O objetivo, segundo Augusto, é formar uma geração de produtores mais empreendedora, preparada para construir base e expandir a presença da música brasileira para diferentes territórios.
Iviz Duarte fala sobre persistência e bastidores
Outro entrevistado do primeiro dia foi Iviz Duarte, DJ e produtor que atua há pouco mais de três anos com foco na carreira musical. Seguindo uma linha ligada ao house, tech house e EDM, ele contou que começou recentemente a lançar suas próprias músicas e segue buscando novas labels para ampliar seu caminho dentro da produção.

Antes da música, Iviz vinha da área de tecnologia. A transição para a eletrônica aconteceu de forma natural, a partir da curiosidade pela produção, da relação familiar com um primo beatmaker e do desejo de deixar de ser apenas admirador para fazer parte do ecossistema musical. Para ele, a música eletrônica não é apenas batida ou entretenimento superficial: existe cultura, emoção, sentimento e união por trás da cena.
Ao falar sobre dificuldades, Iviz citou o TDAH como um dos desafios pessoais no processo criativo. Produzir exige foco, estudo, paciência e muitas horas diante do computador ou dos instrumentos. Em alguns momentos, o cansaço aparece e a vontade de desistir também. Ainda assim, ele acredita que persistência e esperança são fundamentais para quem deseja seguir na música.
O público também precisa entender o backstage
Para Iviz, eventos como o AMPLIFY ajudam a revelar tudo aquilo que muita gente não vê. Quem ama música eletrônica muitas vezes acompanha o show, a festa ou o lançamento, mas não conhece o caminho que existe antes: a produção, a execução, a distribuição, os bastidores, o estúdio, o planejamento e o esforço para uma música chegar ao público.

Essa visão reforça um dos pontos centrais do evento. O AMPLIFY não fala apenas com quem já atua no mercado, mas também com quem admira a cena e quer entender melhor como ela funciona por dentro. Ao abrir essas conversas, o evento ajuda a formar um público mais consciente e artistas mais preparados.
Aaron explica o propósito do AMPLIFY
Aaron também falou sobre a criação e o propósito do AMPLIFY. Segundo ele, o evento já existe há pelo menos um ano e nasceu para reunir artistas, DJs, produtores musicais e pessoas da indústria com o objetivo de educar quem está chegando agora. Mais do que promover encontros, a ideia é ajudar a rejuvenescer o mercado da música eletrônica.

Para Aaron, a parceria entre AMPLIFY, DJ Ban e Music Stream cria um espaço importante para aproximar grandes nomes da cena de artistas em início de trajetória. Esse amparo, segundo ele, dá seriedade ao processo e ajuda as pessoas a entenderem que é possível construir carreira dentro da música eletrônica. Dá para viver desse mercado, desde que exista informação, estrutura, conexão e preparo.
Com cerca de 20 anos de experiência, Aaron contou que não começou na eletrônica, mas no rock hardcore. Depois de tocar em bandas e circular por espaços da cena independente de São Paulo, chegou à música eletrônica por influência familiar. Mais tarde, morou fora do país e entendeu que queria estar inserido nesse mercado de forma profissional. Com o tempo, saiu da atuação como DJ e produtor para trabalhar também no backstage e na indústria.
Música eletrônica como profissão possível
Na visão de Aaron, a música eletrônica mudou muito desde o início de sua trajetória. Hoje existem mais tecnologias, mais suporte e mais acesso a informação. Isso não significa que ficou fácil, já que a concorrência também cresceu, mas significa que há mais caminhos para aprender, se posicionar e se profissionalizar.

Por isso, ele defende que quem tem dúvida sobre participar de eventos como o AMPLIFY deve aproveitar a oportunidade. Para Aaron, encontros assim não acontecem todos os dias e podem oferecer aprendizados que depois se transformam em prática. O evento se torna, então, um ponto de encontro entre experiência, oportunidade e formação.
Fernanda Porto celebra a mistura entre Brasil e eletrônica
O primeiro dia também contou com a presença de Fernanda Porto, uma das artistas mais importantes na ponte entre música brasileira e música eletrônica. Ela contou que toca e canta desde criança, mas que foi aos 18 anos que a eletrônica a conquistou de vez, quando começou a fazer trilhas para cinema e precisou lidar com equipamentos para sincronizar vídeo e áudio.

A partir daí, sintetizadores, teclados e novas sonoridades passaram a fazer parte de sua pesquisa. Fernanda estudou música erudita e música eletrônica, começou compondo ainda na escola, participou de festivais e só aceitou lançar seu trabalho quando sentiu que havia encontrado o som que queria. Seu primeiro single chegou em 2001, e o primeiro disco veio em 2002, gravado por ela mesma, com todos os instrumentos.
Para Fernanda, a música brasileira pode ser internacional porque carrega um swing próprio. Sua trajetória prova justamente isso: misturar MPB, bossa nova, samba, maracatu, pop brasileiro e eletrônica não enfraquece a identidade nacional. Pelo contrário, amplia suas possibilidades.
“Sambassim” e a força da pesquisa sonora
Entre os momentos mais marcantes de sua carreira, Fernanda citou o lançamento de “Sambassim”, que ganhou força em Londres e abriu portas importantes. Depois vieram convites para trabalhos em novela, a trilha do filme “Cabra-Cega”, uma versão remix de “Valsa Brasileira”, de Chico Buarque, gravada com o próprio compositor, além de colaborações com músicos internacionais e um trabalho no Acústico MTV de Marina Lima.

No AMPLIFY, Fernanda destacou a importância de se sentir pertencente a um grupo de pessoas que buscam coisas parecidas. Para ela, o contato humano e a chance de tocar músicas novas para um público específico tornam o evento especial. Em um espaço formado por artistas, produtores e pessoas da cena, testar uma faixa inédita também vira uma forma de escuta e troca.
NIKO fala sobre trap, melodias e construção independente
O primeiro dia também abriu espaço para NIKO, artista que começou há cerca de três ou quatro anos produzindo beats no Reaper antes de passar a cantar. Para ele, começar pela produção ajudou a desenvolver um olhar diferente sobre a música, especialmente na construção de melodias, refrões e atmosferas.

NIKO se identifica com músicas mais melódicas, próximas do universo das love songs, do R&B e de vertentes do trap. No ano passado, lançou “11 Amores”, seu primeiro álbum como produtor e artista. Com 11 faixas, o projeto foi pensado para apresentar uma situação, sentimento ou história em cada música.
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi o primeiro show. Para ele, ver pessoas cantando suas músicas ao vivo mostrou que o trabalho estava chegando de verdade ao público. Esse contato direto com quem escuta é uma das experiências que transformam a percepção de qualquer artista independente.
A parte técnica também importa
NIKO também falou sobre seus próximos passos. Seu novo lançamento está previsto para o dia 18 de outubro, com uma música pensada para ter um refrão marcante. Além disso, ele prepara um EP em colaboração com outros artistas, previsto para o início do próximo ano.

Ao comentar sua presença no AMPLIFY, NIKO destacou a importância de aprender sobre tudo aquilo que existe fora da criação musical. Para ele, fazer a música pode ser a parte mais prazerosa do processo, mas existe muito trabalho em torno de distribuição, registro, direitos e business. Na cena do hip-hop e do trap independente, essa parte técnica ainda é pouco discutida, e isso faz com que muitos artistas enfrentem problemas que poderiam ser evitados com mais informação.
A fala de NIKO amplia a proposta do evento: o AMPLIFY não é apenas para DJs ou produtores eletrônicos, mas para artistas que querem entender melhor como transformar música em carreira.
AMPLIFY como ponto de encontro da cena
O primeiro dia do AMPLIFY deixou claro que a música é feita de muitas camadas. Existe o artista no palco, mas também existe quem produz, registra, distribui, posiciona, comunica, cria identidade sonora, constrói catálogo, faz networking e pensa o futuro da cena.
Ao reunir nomes de diferentes gerações, estilos e funções dentro da indústria, o evento reforça a importância de criar espaços de troca reais. A música eletrônica, o trap, o pop, o lo-fi, o R&B e a produção independente se encontram quando o assunto é construção de carreira, consistência e profissionalização.
No fim, o primeiro dia do AMPLIFY mostrou que a cena cresce quando compartilha conhecimento. Não basta lançar música. É preciso entender o mercado, cuidar da identidade, formar rede, aprender com quem veio antes e abrir espaço para quem está chegando agora.
E é justamente nessa troca que o futuro da música começa a ganhar forma.



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